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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

"O Refúgio"


O que faz de uma casa um lar? E o que faz de um lar o ponto mais importante do seu mapa sentimental? Sinta-se em casa



Depois de uma rotina frenética e cheia de compromissos, repleta de reuniões, de mexericos e burocracias, de trânsito sem fim, de apertos de mão, de envio de emails e de fechamento de relatórios, não tem nada melhor que poder, enfim, chegar em casa. Poucas horas do dia são mais prazerosas que esta: de colocar a chave na fechadura, girar a maçaneta, respirar fundo e perceber que se está de volta ao lar, doce lar. Parece que em nenhum outro lugar do mundo somos tão bem-vindos e nos sentimos tão reconfortados quanto em nossa morada. E não é só uma percepção. Realmente é nela que retomamos o contato com o nosso eu mais autêntico, que estava escondido nos bastidores esperando só que o dia acabasse. De todos os endereços, é ali na rua não sei das quantas, número tal, que você tem um lugar só seu – mesmo que o divida com algumas pessoas. É na sua privacidade que você pode se jogar no sofá, estender as pernas e, por uns instantes, dar as costas para o mundo. Pode entrar. Tire o sapato e fique à vontade. A casa é sua.

Abrigo para o corpo



No princípio eram as pedras. E, há alguns milhares de anos, nossos ancestrais as ergueram com as mãos para construir abrigos. Com o tempo, começaram a levantar coberturas utilizando ramos de árvores, a cavar grutas nos montes e a imitar os ninhos dos pássaros, com barro e ramos. As casas se tornaram o lugar que nos protege do ambiente em que vivemos: é lá que estamos seguros, resguardados do frio, da chuva... Mas o conceito de casa como conhecemos hoje surgiu no Império Romano, com as construções de madeira e barro, bastante semelhantes às cabanas e choupanas.


Um dos maiores arquitetos desse período, o romano Marcos Vitrúvio foi o primeiro a teorizar sobre a essência da casa. Para ele, ela estava justamente na lareira, cujo fogo era o elemento inseparável das cabanas rústicas. Em seu tratado De Architectura, ele relata que com o fogo surgiram entre os homens as reuniões, as assembleias e a vida em comum.  E também a convivência doméstica. A palavra lar é uma corruptela de lareira. Tem a ver com o conceito do fogo de unir ao seu redor todos os integrantes de um laço familiar, sendo, de modo figurativo, um manto que aquece, aproxima e protege todos os seus integrantes.

Refúgio para a alma


Essa proteção pura e simples ganhou uma relação afetuosa com o passar dos séculos. Nossa casa não é só um local em que estamos protegidos fisicamente – é um lugar no qual gozamos de pleno conforto emocional. Saber que temos onde morar, deixar nossos pertences e viver nossa vida íntima nos dá uma segurança tremenda. Porque a moradia representa o controle que temos sobre nossa vida privada. Se somos donos de uma casa, aquele espaço nos é assegurado por direito. Ninguém pode contrariar nossa vontade. É por isso que a segurafnça emocional está tão ligada ao “sonho da casa própria”. Sem um lugar para chamar de nosso, nos sentimos vulneráveis, sem controle de nossa vida. Temos a ilusão de que só no lar estaremos a salvo. É a proteção da nossa incerteza da existência, como dizia Sigmund Freud.



Já outro ramo recente da psicologia tratou de estudar a relação do ser humano com o ambiente em que vive. A psicologia ambiental defende que, ao mesmo tempo que o homem modifica o meio, é também modificado e influenciado por ele. Dessa forma, a casa em que vivemos tem um papel importante no desenvolvimento de nossa personalidade. Ela é a extensão do nosso “eu”. Essa relação começa ainda na infância. Quem não tem aquela lembrança boa de um lugar da casa em que tenha morado quando pequeno? O quintal dos fundos, aquele esconderijo debaixo do tanque, a bagunça da garagem. As primeiras impressões afetivas de um indivíduo surgem na infância, geralmente no lar, que é o lugar em que passamos mais tempo quando somos bebês. Por isso o conceito de lar está tão ligado à família em nossa mente, do Laboratório de Psicologia Ambiental da Universidade de Brasília.

LIVROS



A Arquitetura da Felicidade, Alain de Botton, Rocco A Casa, Jorge Marão Carnielo Miguel, Imesp

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